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Desconceituado as festas de Fim de Ano

22/03/2010

Mais um ano se passara.

Os homens estouravam suas alegrias em infinitos tons. Ora azuis, verdes, vermelhos, amarelos, enfim, o mundo gritava alto e grave. Os seres humanos comemoravam o minuto que passara e dera início a mais um dia em suas existências catastróficas.

Os pobres esqueciam suas misérias e os ricos celebravam suas fortunas, os doentes deixavam seus lamentos, enquanto os saudáveis nem cogitavam os cânceres que se alastravam dentro de seus corpos pulsantes e eufóricos, devido as altas doses de falsos estimulantes.

A vida deixava de ser horrenda e maldosa, pelo menos naqueles breves instantes de alegria.

Tudo transparecia doçura e frigidez.

As famílias se abraçavam e beijavam-se. Sorrisos, gargalhadas, vozes, muitas vozes declaravam as três lindas e anestesiantes palavras: Feliz Ano Novo!

Impressionante, assíduos leitores, a força e brutalidade com a qual esses míseros fonemas destroem e massacram todo e qualquer objeto de depressão. Durantes alguns minutos, a humanidade se esquecia de todo mal que causara, como se ao pronunciar tais palavras a maldade e desonestidade fosse limpas de seus negros corações.

Parei, agora na primeira pessoa, e me contive em somente, sim, simplesmente, observar a frialdade com a qual os mesmo assassinos, estupradores e estelionatários de outrora, fingiam, ou deixavam-se esquecer, ser bons moços, retirando o mal de dentro de si como se ele fosse apenas gás, isso mesmo, gás, daqueles que saem com pressão quando se abre uma lata de refrigerante, expulsando, com brutalidade, as verdades que se escondem por detrás daqueles sorrisos e falsas promessas. Uns diziam: vou parar de fumar, outros, de beber, roubar, matar, estuprar, enfim, todo tipo de ladainha.

Dei, agora, um vôo até o outro lado do mundo.

Viajei, com extrema velocidade, ao Oriente. Em alguns países já era dia, a euforia do minuto salvador se acabara e a boçalidade permanecia a mesma de sempre, aquela que os corrompe desde o início das eras.

Humanos, pensei. Será que nunca vão mudar? Evoluir? Crescer, ao menos.

Essa é uma pergunta difícil de se responder, talvez nem eles mesmos consigam respondê-la.

Complexidade.

Bilhões de vidas.

Corriam de casa em casa abraçando os vizinhos, aqueles mesmos que semana passada haviam sido xingados e malditos. Ah! Não pude conter o riso irônico.

Que poder!

Quanta magia!

Que palavras benditas eram aquelas.

Ou será que não eram as tais em si, mas sim os corações?

Tens razão, sábio leitor. O que tem força não são os fonemas, mas sim o coração vibrante, vivo.

O perdão é um sentimento forte entre vocês.

A claridade nua e crua atracada no peito revela-se poderosa. A esperança que, a partir daquele minuto, há de tudo ficar bem, ribomba como um trovão dentro do corpo e mente humana. É como o viciado em LSD, que espera, ansiosamente, pela droga, que não suporta mais a espera, que olha ao relógio, segundo após segundo, mas não vê as horas, passa as mãos contra o corpo e não as sente, olha, incessantemente, para os lados, mas não vê ninguém, a ansiedade explode em seu interior, borbulhando o sangue e acelerando os batimentos cardíacos, até que enxerga uma sombra e uma seringa, estanca o sangue, olha a voz que lhe resta: vai!

Aguarda o salto da veia e a gota penetra. Espera o primeiro dia do ano.

Luzes.

Fogos.

Gritaria.

Agitação.

Torpor.

Prazer.

O efeito do líquido se esvai, o mundo se cala, vem a melancolia, o desespero, a depressão.

Desculpe-me senhores e senhoras a agressividade no exemplo, mas se observarem com cautela e minuciosidade é bem assim que funciona.

Passei décadas observando cada dia primeiro e sempre foi assim, pois os homens são viciados em acreditar que algo mágico surgirá e os tirará dos problemas, dispersará os malfeitores, a crise financeira, a gravidez fora de hora, enfim, tudo, pois é muito mais fácil abafar as dificuldades do que enfrenta-las, isso é uma forma refúgio, uma tentativa de saída, mas no fundo, o buraco é mais embaixo, a ferida está infeccionada, a seringa contaminada. O primeiro dia do ano é igual ao de amanhã e o de depois, o que o faz diferente é a forma com a qual é visto e encarado.

Lembram-se do viciado que citei acima?

Morreu às 00:01 do dia primeiro de Janeiro.

Agora, depois de toda essa adversidade, eu te pergunto ilustríssimo leitor: quem são os monstros?

Texto retirado do livro Filhos da Noite.

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3 Comentários leave one →
  1. Luciana permalink
    25/03/2010 20:59

    Maravilhoso, melancólico e triste

  2. Anderson Martins permalink
    29/03/2010 16:46

    Legal colocar esse trecho do livro, mas para quem não leu o liovro fica um pouco vago.

  3. Guilherme permalink
    30/03/2010 17:06

    CErtíssimo, espetacular, sem palavras!

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